quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O difícil diagnóstico

O caso que vou narrar é verídico e aconteceu numa cidade do interior de Minas, mais precisamente na casa de meus pais.
Terezinha era uma ótima empregada. Arrumava, lavava, passava e cozinhava muito bem, além de ser de total confiança. De boa índole, íntegra de caráter...Terezinha era perfeita. Não tinha defeitos.
Após algum tempo já em nossa casa - Terezinha permaneceu muitos anos conosco, se desligando da gente apenas quando se casou - ela começou a apresentar um quadro clínico muito específico. De tempos em tempos, Terezinha enrijecia os músculos e o corpo, emitia uns grunhidos e parecia que entrava em transe.
Preocupados com o desenrolar dos episódios que começaram a se suceder, meu pai chamou um médico, amigo da família.
Naquele dia Terezinha estava "em transe" havia horas e nada a retirava daquele quadro. Dr Mafran chegou e pediu para ver a moça. Meu pai o conduziu pela casa até o quarto dela. Terezinha era solteira e nunca tínhamos visto ou ouvido qualquer comentário sobre paqueras ou namorados. Nos retiramos do quarto e, algum tempo depois, o médico saía dos aposentos da "moribunda". Fomos ansiosos ao seu encontro para saber de que mal a moça sofria.
Dr Mafran, fechando sua maleta médica, calmamente nos disse:
- Esta moça não tem nada. A única patologia que detectei foi que ela está com "Strec mod omi".
Perplexos, não conseguíamos entender o que se passava com a coitada. Seria uma nova doença? Era contagiosa? Qual seria o tratamento? As dúvidas ecoavam de nossas bocas. Afinal, como deveríamos proceder para que a moça ficasse boa logo?
Foi quando vi uma risadinha de canto de boca do Dr Mafran. Ele percebera nosso semblante de preocupação e foi logo nos tranquilizando. Terezinha sofria de um mal: o mal de nunca ter tido um homem em sua vida. Ela entrava em crise porque estava histérica. Histérica por causa de homem. Logo entendi que o Strec mod omi dela tinha um remédio: Terezinha precisava arrumar um namorado urgentemente.

A peruca que voou


Engraçado como as pessoas utilizam, reorganizam e dão novo sentido a um conjunto de palavras. É o que acontece com a expressão "minha peruca voou".

Escutei o termo pela primeira vez numa conversa com uma amiga que trabalhava em uma rádio local. Era um programa de madrugada que ela e um amigo faziam, com a participação dos ouvintes. E havia um travesti que sempre ligava e acompanhava todas as discussões que ali rolavam.

Num desses dias, ele(a)(?) ligou novamente porque estava acompanhando o programa e se assustou com um fato ocorrido. Foi quando ele(a)(?) soltou a pérola: "gente, minha peruca voou agora". Após o riso geral, a expressão ficou registrada e passou a ser adotada com o sentido de levar um susto, se indignar com alguma coisa.

O melhor é quando alguém careca fala a expressão...dá pra imaginar a cara de bobo de quem ouve e não entende o que se passa. Só resta então lamentar com o coitado a perda dos falsos cabelos.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Traqueta


Como é bom o Brasil ser tão vasto e tão diverso na cultura.
Quando vim para BH, em 1990, o que mais denunciava o fato de eu não ser daqui, além da timidez e pouco engajamento com os costumes locais, era o modo de falar.
Além de vir a BH para "visitar os parent..., tratar de dent... e tirar document...", que é um jeito peculiar de ilustrar como as pessoas da minha cidade conversam, alguns termos de lá são desconhecidos pela grande maioria dos belorizontinos, e "traqueta" é um deles.

Todo mundo conhece, lança mão do seu uso frequentemente, possui diversos tamanhos - larga, estreita... mas quando pergunto como ela é conhecida aqui, muita gente não sabe dar-lhe um nome.

A traqueta nada mais é do que aquela tira de tecido ou couro por onde você passa o cinto da sua calça, bermuda ou saia. Alguns a conhecem como presilha ou passador. Onde nasci, presilha e passador são objetos para usar na cabeça, prendendo o cabelo. Vai entender, né? E viva a diversidade!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

De onde vem o frege

Frege é uma expressão pouco conhecida. De onde eu venho, no interior de Minas, Vale do Mucuri, frege é conhecido e usado rotineiramente.

Certa vez, estava eu no Rio. Tinha ido assistir ao show da Madonna, em 93 (ai meu Deus, tem hora que é complicado dar exemplos!) e naquele fim de semana, tínhamos ido à praia . No final do dia, resolvemos voltar para casa. Eu estava hospedado no ap de uns amigos e isso ficava na Tijuca. Todos estávamos na Barra naquele dia e, pasmem, éramos nove pessoas num fiat prêmio. Pra regressar, nos esprememos e acomodamos no carro, claro que igual a sardinhas enlatadas, já dá pra vocês imaginarem. Pra piorar a situação, havia diversas conversas paralelas e o som ainda estava ligado. Poluição sonora era algo que não existia no interior daquele carro, né? Imagina... Aqueles ruídos todos foram aumentando e eu já não via a hora de chegar em casa. Quando chegamos, fui um dos últimos a sair do carro (ou o que sobrou de mim!) e foi o momento que soltei a expressão que causaria uma gargalhada geral: este carro tá um frege!

Para quem não conhece ainda, frege é um regionalismo que quer dizer barulho de vozes acaloradas, discussão, gritaria, briga, confusão. E foi daí que tirei minha inspiração para dar nome ao blog: pra por um pouco mais de frege (confusão!) na minha vida.

O início de tudo

Há aproximadamente um ano, durante uma conversa informal no intervalo das aulas da pós-graduação, uma amiga soltou uma pergunta que até aquele momento, para mim, era inesperada: você tem um blog?
Eu olhei pra ela com aquela cara de espanto, tipo: como assim? De onde você tirou essa pergunta?
Pois bem. De lá pra cá fiquei com isso na cabeça e deixei lá, cozinhando em banho-maria.
Cerca de um mês atrás, uma outra amiga criou seu blog e me enviou o link. Na hora entrei e li os posts. Nunca mais voltei... Ontem, recebi novamente um e-mail da Gabi, com o link para o Delitos do Cotidiano. Resolvi dar outra olhada. Afinal, em um mês muita coisa pode acontecer. Quando eu comecei a ler os posts, me diverti muito, ri tanto que terminei minha noite de maneira leve e já com uma urgência em mente: preciso criar o meu.

Daí veio a idéia do blog para somar-se a um antigo sonho que tenho: ir catalogando diversas expressões que ouço no dia-a-dia e que se aplicam a situações completamente inusitadas ou que tenham uma história interessante por trás. Assim surgiu o Frege que é bom, para deixar registrado e compartilhar jeitos peculiares de se comunicar e se expressar aqui em Minas, no Brasil ou no mundo. Seja bem-vindo e espero que divirta-se.